Nísia Floresta Brasileira Augusta
Translated by Nicoly Monteiro dos Santos

“Quanto mais ignorante é um povo, tanto mais fácil é a um governo absoluto exercer sobre ele o seu ilimitado poder. É partindo deste princípio, tão contrário à marcha progressiva da civilização, que a maior parte dos homens se opõe a que se facilite à mulher os meios de cultivar o seu espírito. Porém, é este um erro, que foi e será sempre funesto à prosperidade das nações, como à ventura doméstica do homem.” (Opúsculo humanitário, 51)
Nísia Floresta Brasileira Augusta é o pseudônimo de Dionísia Gonçalves Pinto. Floresta foi uma das pioneiras do feminismo brasileiro, tendo sido a grande força por trás de Direitos das mulheres e injustiça dos homens, um texto fundamental para os direitos das mulheres na América Latina. Além disso, ela foi uma célebre intelectual que alcançou notoriedade internacional ainda em vida. Seu trabalho vai muito além da tradução de Direitos (feita em 1832, quando ela tinha apenas 22 anos) e abrange poesia, narrativas de viagem e ensaios filosóficos sobre moralidade e educação. A maioria das suas obras é de cunho autobiográfico e trata das virtudes femininas e da educação moral. Embora a maior parte dos escritos de Floresta estejam em português, ela também escreveu em francês e italiano, e algumas das suas obras foram traduzidas para o inglês, o italiano e o francês, o que assegurou que suas ideias fossem difundidas para muito além do Brasil.
Os jornais e a imprensa brasileira foram receptivos às obras de Floresta, e ela era conhecida por sua atuação como diretora escolar (apesar de a elite do Brasil pós-colonial não aprovar esse trabalho). Em 1849, Floresta publicou o poema A lágrima de um Caeté, retratando as condições sociais do grupo indígena Caeté e da Revolta da Praieira. Os capítulos do seu principal trabalho, Opúsculo humanitário, foram amplamente disseminados nos jornais cariocas e publicados em forma de livro em 1853. Esta obra estava à frente do seu tempo em diversos aspectos, uma vez que questionava o tratamento das mulheres, pessoas escravizadas e indígenas no regime colonial do Brasil do século XIX.
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1. Biografia
Floresta nasceu em 12 de outubro de 1810, filha de um advogado português que morava na cidade de Papari, no Rio Grande do Norte. Sua vida foi marcada por revoltas provinciais. Em 1817, sua família precisou deixar a residência Floresta (de onde vem seu pseudônimo) devido à Revolução Pernambucana, uma insurgência anticolonial. No ano seguinte, em 1823, aos 13 anos, Floresta casou-se com Manuel Alexandre Soabra de Melo, dono de uma grande propriedade local e membro de uma importante família da região. O casamento não teve sucesso e ela logo regressou à sua residência familiar – a história oral indica que ela sofreu com um marido abusivo e foi acusada de abandono doméstico. Em 1824, Floresta e sua família se mudaram para a cidade de Olinda, no estado de Pernambuco, onde eles novamente encontraram um ambiente político turbulento devido a Confederação do Equador, uma revolta popular republicana. Em 1828, o pai de Floresta foi assassinado, uma perda que a afetou profundamente. O ensaio autobiográfico publicado postumamente em 1878, Fragmentos de uma obra inédita, descreveu a perda do seu pai, bem como a agitação que levou a sua família a deixar permanentemente o estado de Pernambuco:
“Uma horda de homens desenfreados, que chamávamos de ronda leve, percorria os arredores atirando sobre as casas; uma descarga de fuzil, atravessando a porta exterior de uma sala onde se encontrava o pequeno Brazil, caiu a dez centímetros acima da cabeça desta criança, que, meio adormecida num sofá, escapou da morte como por um milagre. A consternação de toda a família exposta a tais atentados foi imensa; nosso pai, no horror que lhe inspiravam esses excessos e vendo devastada sua bela propriedade, outrora tão admirada por todos os que aí recebiam o mais hospitaleiro dos acolhimentos, determinou-se com lamento a abandoná-la.” (48-49)

Em Olinda, Floresta conheceu e se casou com Manuel Augusto de Faria Rocha, um jovem estudante da Faculdade de Direito de Olinda—uma instituição central de formação e desenvolvimento da tradição filosófica brasileira. Floresta e Manuel Augusto tiveram dois filhos juntos, Lívia (1830) e Augusto Américo (1833). Após a graduação de Manuel Augusto, eles se mudaram para Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, em 1832. Pouco tempo depois, Manuel Augusto faleceu e Floresta precisou se manter e cuidar dos seus dois filhos pequenos sozinha.
Após lecionar em sua própria casa, Floresta abriu uma pequena escola chamada Colégio Brasil e iniciou sua trajetória como professora e diretora escolar. No início da Revolta dos Farrapos (1835-1845), Floresta e sua família se mudaram para a cidade do Rio de Janeiro, capital do Império do Brasil na época, novamente tentando encontrar um lugar estável para morar. Lá, em 1838, ela criou e dirigiu uma escola para meninas, o Colégio Augusto, onde se ensinava história, matemática e latim. Naquela época, o ensino dessas disciplinas para mulheres era considerado um escândalo; em 1847, um jornal publicou uma condenação do currículo escolar, bem como do juízo de Floresta: Floresta é referida como “D. Augusta” e “D. Floresta.”
“Há casas de educação que tem o mau-gosto de ensinar as meninas a fazer vestidos ou camisas. Mas parece que D. Augusta acha isso muito prosaico. Ensina-lhes latim. (…) Notaremos apenas a D. Floresta que se esquece um tanto do verdadeiro fim da educação, que é adquirir conhecimentos úteis, e não vencer dificuldades, sem nenhuma utilidade real.” (O Mercantil, 17 de janeiro de 1847)
Apesar das críticas, a escola continuou operando por 18 anos. Nesse período, Floresta escreveu vários textos educativos, como Conselhos à minha filha (1845) e as ficções Daciz ou uma jovem completa (1847) e Fanny (1847). Ainda em 1847, ela publicou uma palestra, Discurso que às suas educandas dirigiu Nísia Floresta Brasileira Augusta, na qual escreveu:
“Minhas caras educandas! (…) Felizes aquelas, que, tendo como vós pais que, curando de vossa felicidade futura, facilitam-vos os meios de cultivardes o vosso espírito, e lições que tendem a aperfeiçoá-lo, sabem aproveitar o tempo precioso dos estudos e fazer bom uso de uma instrução, de que tanto precisa o nosso sexo.” (3-4)
Anos depois, em 1853, ela publicou uma obra sobre a sua filosofia educacional, o Opúsculo humanitário. A partir dos anos 1850s, Floresta viajou para a Europa e fez conexões intelectuais fundamentais. Em 1851, ela foi para a França, onde conheceu Auguste Comte e Lamartine e frequentou o curso de História Geral da Humanidade no Palais Cardinal, ministrado por Comte. Após uma viagem de volta ao Brasil em 1852 para retomar suas atividades docentes, Floresta retornou à França em 1855 e começou a publicar em francês e italiano. Ela viajou para a Itália, Inglaterra, Grécia, França, Alemanha e Portugal.
Floresta participou dos salões franceses—iniciando assim sua amizade com importantes pensadores da época—e fundou uma sociedade onde havia mais espaço público para as mulheres. Em 1856, ela iniciou sua correspondência com Comte. Ele a visitava regularmente em sua casa em Paris, tanto na 11 Rue d’Enfer quanto na Rue Royer Collard. A amizade durou até a morte de Comde em 1857. Floresta também manteve contato com Almeida Garret, Alexandro Herculano, Alexandre Dumas, Victor Hugo, entre outros. Ela residiu na França durante a maior parte desse tempo. Após a queda do império de Napoleão III e a ascensão do efêmero governo revolucionário da Comuna de Paris, Floresta deixou Paris.
Depois de alguns anos viajando, incluindo uma breve passagem pelo Brasil, Floresta retornou à Europa. Ela morou em Londres, Berlim, Lisboa, e Paris, mas sua residência final foi Rouen. Em 1885, Floresta morreu de pneumonia e foi enterrada em um cemitério em Bonsecours, França, perto da cidade de Rouen. Ela tinha 75 anos.
Em 1948, o município de Papari, onde Floresta nasceu, foi renomeado em sua homenagem como município Nísia Floresta. Uma área indígena em Pernambuco também foi batizada em seu nome. Em 1954, seus restos mortais foram trasladados de volta ao Brasil e ela foi sepultada em sua cidade natal. Um selo comemorativo e um carimbo foram produzidos pelo governo e uma celebração oficial ocorreu em 11 de setembro de 1954.
Referências
AUGUSTA, Nísia Floresta Brasileira. Fragmentos de uma obra inédita: notas biográficas. Brasília: Editora Universidade de Brasília, (1878) 2001.
AUGUSTA, Nísia Floresta Brasileira. Discurso que às suas educandas dirigiu Nísia Floresta Brasileira Augusta. Rio de Janeiro: Collegio Augusto, (1847) 1987.
DUARTE, Constância Lima. #NísiaFlorestaPresente: uma brasileira ilustre. Natal, RN: Mariana Hardi, 2019.
DUARTE, Constância Lima. Nísia Floresta: Vida e obra. Natal, RN: UFRN, Editora Universitária, 1995.
“INSTRUÇÃO Publica: Revista dos Colegios da Capital.” O Mercantil, p. 3, 17 de jan. 1847. Disponivel aqui.
1.1 Retratos
Existem muitas imagens das obras de Floresta, desde fac-símiles de seus artigos de jornal até digitalizações de primeiras edições. Embora existam diversos tipos de materiais da imprensa do século XIX, grande parte do material do século XXI atribuído à Floresta não é confiável—por exemplo, há atribuições incorretas de imagens e informações biográficas confusas.
Uma das imagens mais conhecidas de Floresta apareceu incialmente em um artigo sobre sua vida e obra e, aparentemente, era uma fotografia. Em 12 de maio de 1872, a revista portuguesa O Novo Mundo, sediada em Nova York, publicou um artigo intitulado “D. Nísia Floresta” com uma grande foto sua no centro da página. (Um fac-símile desse artigo pode ser acessado através da Hemeroteca Digital, a divisão digital da Biblioteca Nacional do Brasil.)

A imagem tem a legenda “D. Nísia Floresta, Escriptora Brazileira” e o nome do artista (possivelmente “E. Sears”) ao longo da parte inferior esquerda do quadro oval. O artigo termina com uma referência a esta imagem: “O retracto que publicamos é tirado de uma photographia ja muito indistincta [sic]” (p. 133). Este retrato de Floresta— olhando diretamente para a frente, usando uma jaqueta com colarinho e franjas sobre sua camisa abotoada e presa no pescoço, seu semblante transmitindo tranquilidade e confiança—foi reproduzido muitas vezes e é uma das suas representações mais conhecidas. Por exemplo, o retrato foi usado em um selo postal comemorativo produzido pelos Correios em 1954, quando os restos mortais de Floresta foram transferidos do cemitério de Bonsecours, na França, para o Brasil. Na mesma ocasião, um panfleto comemorativo foi produzido e distribuído na cidade de Nísia Floresta durante cerimônia de reenterro.


Em 1977, o artista visual brasileiro Balthasar da Câmara (1890-1982) produziu um retrato póstumo baseado na mesma imagem. Atualmente, este retrato colorido está na Galeria de Honra da Fundação Joaquim Nabuco, em Recife.

Uma fotografia sem data de Floresta pode ser encontrada na Maison Auguste Comte, em Paris, na França. Até o presente momento, não há informações disponíveis sobre a origem da foto.

1.2 Cronologia
| Data | Evento |
| 12 October 1810 | Dionísia Floresta Brasileira Augusta, também conhecida como Nísia Floresta, nasce no dia 12 de outubro no “Sítio Floresta,” em Papari, Rio Grande do Norte, filha de Dionísio Gonçalves Pinto Lisboa, um advogado português, e Antônia Clara Freire |
| 1822 | A independência do Brasil é declarada pelo Príncipe Pedro em 7 de setembro, estabelecendo o Império do Brasil |
| 1828 | O pai de Floresta é assassinado por inimigos políticos |
| 1832 | Floresta publica seu primeiro livro, Direitos das mulheres e injustiça dos homens |
| 1837 | Floresta, agora viúva, leva sua família para o Rio de Janeiro para escapar da Revolta de Farroupilha |
| 1838 | Floresta funda sua escola, onde leciona até sua mudança para a Europa |
| 1842 | Floresta publica Conselhos a minha filha |
| 1849 | Floresta publica A lágrima de um Caeté e se muda para a Europa |
| 1850 | O tráfico de pessoas escravizadas é proibido no Brasil |
| 1851 | Floresta participa das conferências de Auguste Comte no Palais Cardinal e visita Alphonse de Lamartine em Paris; ela também viaja para Portugal |
| 1853 | Floresta publica seu tratamento sobre a posição da mulher na sociedade, Opúsculo humanitário |
| 1856 | Floresta publica a crônica “O pranto filial” e o livro Pensamentos. Sua escola fecha as portas após 18 anos. As visitas e trocas de correspondências de Floresta com Comte continuam até a morte dele no ano seguinte |
| 1858 | Floresta traduz seu livro Conselhos a minha filha para o italiano e viaja extensivamente na Itália |
| 1871 | É promulgada no Brasil a Lei Rio Branco, mais conhecida como Lei do Ventre Livre. A lei considera livres todos os filhos de pessoas escravizadas a partir daquela data |
| 1871 | Floresta deixa Paris e retorna ao Rio de Janeiro |
| 1875 | Floresta retorna à Europa em 24 de março. Primeiro, ela visita a filha na Inglaterra e, em seguida, segue para Lisboa. O irmão de Floresta falece em 9 de novembro, no Rio de Janeiro |
| 1878 | Floresta se muda para a França. Sua última obra, Fragments d’un ouvrage inédit – Notes biographiques, é publicada em Paris |
| 1885 | No dia 24 de abril de 1885, aos 74 anos, Floresta more de pneumonia em Rouenna, França. Ela é enterrada no Cemitério de Bonsecours |
| 1888 | Abolição da escravatura |
| 1889 | É proclamada a República Brasileira |
| 1954 | A cidade natal de Floresta, Papari, muda o nome para “Município Nísia Floresta” em 12 de setembro. Seus despojos são repatriados e sepultados na fazenda de sua família, o Sítio Floresta. |
2. Guia de Fontes Primárias
A maioria das obras de Floresta está em português, mas ela também escreveu em francês e italiano. Dos 15 livros publicados, nove foram escritos em português (um traduzido para italiano e francês durante sua vida), dois em italiano (um traduzido para inglês e outro traduzido para francês durante sua vida), e quatro em francês. Apenas um ensaio, Woman, originalmente escrito em italiano como La Donna, foi traduzido para o inglês. Este ensaio foi traduzido por sua filha Lívia e publicado em Londres.
2.1 Fontes Primárias
FLORESTA, Nísia. A lágrima de um caeté. 2. ed. Rio de Janeiro: Typographia de L. A. F. Menezes, 1849.
_____. Direitos das mulheres e injustiça dos homens. Recife: Typographia Fidedigma, 1832.
_____. Direitos das mulheres e injustiça dos homens. 2. ed. Porto Alegre: Typographia de V. F. Andrade, 1833.
_____. Direitos das mulheres e injustiça dos homens. 3. ed. Rio de Janeiro: n.p, 1839.
_____. Conselhos à minha filha. Rio de Janeiro: Typographia de J. S. Cabral, 1842.
_____. Daciz ou a jovem completa: historieta oferecida a suas educandas. Rio de Janeiro: Typographia de F. Paula Brito, 1847.
_____. Discurso que às suas educandas dirigiu Nísia Floresta. Rio de Janeiro: Typographia Imparcial de F. Paula Brito, 1847.
_____. Fany ou o modelo das donzelas. Rio de Janeiro: Edição do Colégio Augusto, 1847.
_____. A lágrima de um caeté. Rio de Janeiro: Typographia de L. A. F. Menezes, 1849.
_____. Dedicação de uma amiga. Niterói: Typographia Fluminense de Lopes & Cia. 2. Vol, 1850.
_____. Opúsculo humanitário. Rio de Janeiro: Typographia de M. A. Silva Lima, 1853.
_____. Páginas de uma vida obscura; Um passeio ao Aqueduto da Carioca; O pranto filial. Rio de Janeiro: Typographia N. Lobo Vianna, 1854.
_____. 1855. “Páginas de uma vida obscura.” O Brasil Ilustrado. Rio de Janeiro. Janeiro-Junho, 1855. Disponivel aqui.
_____. 1855. “Um Improviso, na manhã de 1. Do Corrente, ao distinto literato e grande poeta António Feliciano de castilho”. O Brasil Ilustrado, Rio de Janeiro, 30 de abril, 1855: 157.
_____. 1855. “Passeio ao aqueduto da carioca.” O Brasil Ilustrado, Rio De Janeiro, 15 de julho, 1855: 68-70.
_____. 1856. “O pranto filial“ O Brasil Ilustrado, Rio de Janeiro, 31 de março, 1856: 141-2.
_____. 1857. Itineraire d’un voyage en Allemagne. Paris: Firmin Diderot Frères et Cie.
_____. 1858. Consigli a mia figlia. Firenze: Stamperia Sulle Logge del Grano.
_____. 1859. Conseils à ma fille. Translated from Italian by B.D.B. Florence: Le Monnier.
_____. 1859. Conselhos à minha filha, com 40 pensamentos em versos. 2. ed. Rio de Janeiro: Typographia de F. Paula Brito.
_____. 1859. Scintille d’un anima brasiliana. Firenze: Tipografia Barbera, Bianchi & C.
_____. 1859. Consigli a mia figlia. 2. ed. Mandovi: n.p.
_____. 1860. Le lagrime d’un Caeté. Translated by Ettore Marcucci. Firenze: Le Monnier.
____. 1864. Trois ans en Italie, auivis d’un voyage en Grèce. Paris: Libraire E. Dentu, vol. 1.
_____. 1865. Woman. Translated by Livia A. de Faria. London: G. Parker.
_____. 1871. Le Brésil. Paris: Libraire André Sagnier.
_____. 1872. Trois ans en Italie, suivis d’un voyage en Grèce. Paris: E. Dentu Libraire- Éditeur et Jeffes, Libraire A. London, vol. 2.
_____. 1878. Fragments d’un ouvrage inédit: notes biographiques. Paris: A. Chérié Editeur.
2.2 Edições Póstumas das Obras de Floresta
______. Sete cartas inéditas de Auguste Comte a Nísia Floresta. Rio de Janeiro: Centro do Apostolado do Brasil, 1888.
_____. Sept lettres inédites d’Auguste Comte à Mme. Nísia Brasileira. Rio de Janeiro: Apostolat Positiviste du Brésil, 1888.
______. Auguste Comte et Mme. Nísia Brasileira: correspondance. Paris: Libraire Albert Blanchard, 1929.
______. Fanny ou o modelo das donzelas. Em Mulheres farroupilhas de Fernando Osório. Porto Alegre: Globo, 1935.
______. A Lágrima de um Caeté. Apres. Modesto de Abreu. Revista das Academias de Letras, Rio De Janeiro, 1938.
______. Itinerário de uma viagem à Alemanha. Tradução de Francisco Das Chagas Pereira. Natal: Ed. UFRN, 1982.
______. Direitos das mulheres e injustiça dos homens. 4. ed. Introdução, anotações, e posfácio de Constância Lima Duarte. São Paulo: Cortez, 1989.
______. Opúsculo humanitário. 2. ed. Introdução e anotações de Peggy Sharpe-Valladares. Posfácio de Constância Lima Duarte. São Paulo: Cortez, 1989.
______. Cintilações de uma Alma Brasileira. Tradução de Michelle Vartulli. Introdução e anotações biográficas de Constância Lima Duarte. Florianópolis: Mulheres/Santa Cruz do Sul: Edunisc, 1997.
______. A Lágrima de um Caeté. Pesquisa e anotações de Constância Lima Duarte. Natal: Fundação José Augusto, 1997.
______. Três anos na Itália. Volume I. Tradução de Francisco Das Chagas Pereira. Posfácio de Constância Lima Duarte. Natal: Ed. UFRN, 1998.
______. Itinerário de uma viagem à Alemanha. 2. ed. Tradução de Francisco Das Chagas Pereira. Pesquisa e anotações biográficas de Constância Lima Duarte. Florianópolis: Mulheres/Santa Cruz Do Sul: Edunisc, 1998.
______. Fragmentos de uma obra inédita. Tradução de Nathalie Bernardo Da Câmara. Apres. Constância Lima Duarte. Brasília: Ed. UNB, 2001.
______. Cartas de Nísia Floresta et Auguste Comte. Tradução Miguel Lemos e Paula Berinson. Organização e anotações de Constância Lima Duarte. Florianópolis: Mulheres/Santa Cruz Do Sul: Edunisc, 2002.
______. Cinco obras completas. Sérgio Barcelos Ximenes. Edições Kindle, 2019.
______. Direitos das mulheres e injustiça dos homens. Pesquisa e anotações de Constância Lima Duarte. Rio Grande do Norte: Sertão das Letras Editora, 2021.
______. Opúsculo humanitário. Introdução e comentários de Constância Lima Duarte. São Paulo; Editora Blimunda, 2021.
______. A Lágrima de um caeté. Posfácio e anotações de Constância Lima Duarte. Mossoró: Sarau Das Letras Editora, 2021.
2.3 Direitos das mulheres e injustiça dos homens (1832)
Em 1832, Nísia Floresta publicou sua primeira obra no Brasil, intitulada Direitos das mulheres e injustiça dos homens. Floresta apresentou o texto como uma tradução em português de A Vindication of the Rights of Woman (Uma Vindicação Dos Direitos Dos Homens, 1792), de Mary Wollstonecraft’s. A própria Floresta acreditou que estava traduzindo a obra de Wollstonecraft e atribuiu a autoria do trabalho à “Senhora Godwin” —utilizando o que ela considerou ser o nome de casada de Wollstonecraft. No entanto, Direitos é, na verdade, uma tradução para o português de uma tradução francesa de um panfleto anônimo em inglês escrito por “Sophia, uma Pessoa de Qualidade.” O panfleto original tinha o título Woman Not Inferior to Man (Mulher não inferior ao homem, 1739). Para mais informações sobre essa história, consulte Botting e Matthews (2014).
2.4 A lágrima de um Caeté (1849)
O poema A lágrima de um Caeté foi publicado no Rio de Janeiro em 1849 e teve duas edições no mesmo ano— indicando que foi amplamente lido. Com 712 versos, o poema de Floresta reúne as duas principais características do Romantismo brasileiro: (1) as lutas indígenas e (2) os problemas sociais durante a formação do Brasil como nação independente. O poema retrata a opressão do povo indígena Caeté e lamenta a repressão da Revolução Praieira, um momento em que os liberais de Pernambuco se revoltaram contra os defensores do Império do Brasil. Ele apresenta uma crítica contundente aos efeitos do colonialismo na jovem nação e em seus povos indígenas.
2.5 Opúsculo humanitário (1853)
Opúsculo Humanitário aborda o projeto educacional de Floresta, assim como sua perspectiva sobre a condição das mulheres, indígenas e pessoas escravizadas na sociedade colonial e pós-colonial brasileira (durante o Brasil Império). Inicialmente, os 62 capítulos foram publicados individualmente e de forma serializada em jornais de grande circulação no Rio de Janeiro (no Diário do Rio de Janeiro em abril de 1853, e no O Liberal de 7 de julho de 1853 a 21 de maio de 1854). Eles foram compilados e publicados em forma de livro em 1853, também no Rio de Janeiro. O livro foi dedicado ao seu irmão, Joaquim Pinto Brasil.
2.6 Páginas de uma vida obscura (1854)
Páginas de uma Vida Obscura é uma narrativa abolicionista escrita sob o pseudônimo “B.A.”. A crônica foi originalmente publicada em capítulos seriados no jornal de 14 de março a 30 de junho de 1854. Posteriormente, foi publicada como livro, juntamente com outras duas crônicas: “Um Passeio ao Aqueduto Carioca” e “O Pranto Filial”.
2.7 A Mulher (1865)
La Donna (A Mulher), de Nísia floresta, foi publicada em 1859 como parte de of Scintille d ‘un’ anima Brasiliana, uma coleção de narrativas de viagem escritas em italiano para um público europeu. Em 1965, a filha de Floresta, Lívia Faria, traduziu La Donna para o inglês em homenagem à sua mãe.
2.8 Escritos educacionais
Após a primeira publicação de Direitos, Floresta dedicou-se à educação, atuando como diretora de uma escola para jovens mulheres. Publicou ainda três pequenas obras com foco moral e pedagógico, voltadas para a educação de meninas.
A primeira, Conselhos à minha filha (1842), foi dedicada à sua primogênita, Livia, e reinforça a ideia de que a virtude é o único caminho para a mulher alcançar a felicidade e o respeito social. Esta obra foi posteriormente traduzida para italiano e francês. A versão italiana, intitulada Consigli a mia Figlia, teve duas edições: uma em 1858 e outra em 1859. Floresta debateu o trabalho com o bispo de Mondovi, que adorou o texto e solicitou uma nova edição para ser lida pelas jovens estudantes do seu convento. Contudo, ele pediu que floresta alterasse sua afirmação de que é a mãe, e não o padre, quem deveria ouvir os segredos da alma de uma jovem. Floresta convenceu o bispo do contrário, e a obra foi publicada sem nenhuma alteração, sendo recomendada pelo bispo para uso em escolas italianas. A versão francesa teve apenas uma edição, intitulada Conseils á ma fille (1859).
A segunda obra, Fanny, ou o modelo das donzelas (1847), apresenta uma heroína que é um exemplo de virtude feminina e estudantil. Floresta contrasta a dedicação de Fanny com a ociosidade de outras garotas, que após deixarem a escola, nunca mais leram um livro, iludindo-se com a ideia de terem conquistado “algo chamado liberdade”. A obra também estabelece uma relação entre a educação e os deveres maternos, retratando Fanny como alguém que auxilia sua mãe com o “fardo dos afazeres domésticos”, o que pode conceder a uma mulher o nobre título de “boa mãe de família”.
A terceira obra, Daciz ou a jovem completa (1847), está perdida.
Esta trilogia foi seguida por Discurso às educandas (1847), onde ela apresenta uma mensagem de encerramento de ano letivo para as alunas e seus familiares. Em 1850, Floresta publicou Dedicação de uma amiga, as partes iniciais de um romance, mas apenas dois dos quatro volumes previstos foram publicados. A última obra educacional de Floresta é Opúsculo humanitário, introduzido anteriormente.
Um improviso (1855) é um poema publicado no Brasil Ilustrado, dedicado ao “distinto literato e grande poeta Antônio Feliciano de Castilho”, um poeta português que desenvolveu seu próprio método educacional.
Scintille d’un’anima Brasiliana (Centelhas de uma alma brasileira, 1859) foi originalmente publicado em Florença, Itália, e traduzido para o português apenas em 1997. É uma compilação de ensaios. No primeiro capítulo, “O Brasil”, Floresta procura mudar a ideia dos europeus sobre o Brasil, discutindo a riqueza natural, o potencial e a história de sua nação.
Em O abismo sob as flores da civilização, o ensaio tem como objetivo alertar a juventude sobre os perigos sociais da modernidade.
Em Viagem Imagética, Floresta leva o leitor novamente à sua terra natal, abordando a natureza do Brasil. Em Um passeio ao jardim de Luxemburgo, Floresta dialoga diretamente com Auguste Comte, discutindo a educação e comparando os espíritos brasileiro e europeu.
O último texto educacional de Floresta, Parsis (1867), está perdido.
2.9 Narrativas de viagem
As narrativas de viagem eram comuns nos séculos XVIII e XIX, e Floresta estava familiarizada com esse gênero. Viajantes de outros países visitavam o Brasil, registrando suas impressões sobre os costumes, a cultura e a identidade miscigenada decorrente da influência dos povos indígenas e dos colonizadores. Floresta adotou o estilo de escrita desses relatos, mas modificou o conteúdo. Ela fazia comparações entre as sociedades brasileira e europeia, trazendo sua perspectiva do “Novo Mundo” para criticar o “Velho”. As culturas que ela descrevia e analisava em seus relatos de viagem foram a alemã, italiana, grega, além da brasileira. Embora considerasse o Velho Mundo um exemplo para o Brasil em alguns aspectos, ela abordava o assunto de maneira imparcial.
Seu primeiro texto de viagem foi Itinéraire d’un voyage en Allemagne (Itinerário de uma viagem à Alemanha, 1857). Escrito em forma de correspondência, Itinéraire combina devaneio e realidade, enriquecendo o livro historicamente e tornando-o pessoal ao mesmo tempo.
Sua segunda narrativa de viagem relata sua estadia de três anos na Itália e uma viagem à Grécia, conforme indicado pelo título: Trois ans en Italie: suivis d’un voyage en Grèce (Três anos na Itália: seguidos de uma viagem à Grécia, 1864). Este livro é uma reflexão crítica sobre as transformações sociais e políticas pelas quais a Itália passava durante suas revoluções. Floresta utiliza dados históricos para analisar o desenvolvimento político da Itália enquanto nação. De certa maneira, a obra antecipa a Unificação Italiana. Sua escrita era diversa: ela escrevia cartas, diários, confissões e crônicas para tentar entender o estilo de vida, a história, e as manifestações culturais do povo italiano. Além disso, o trabalho de Floresta dialoga com outras narrativas sobre a Itália escritas por Byron, Goethe, and Madame de Staël.
Finalmente, em Um passeio ao aqueduto Carioca (1855), Floresta apresenta a cidade do Rio de Janeiro aos estrangeiros por meio de descrições das atracões mais famosas da cidade. Embora demonstre amor pelo seu país, Floresta também reconhece seus defeitos.
2.10 Obras autobiográficas
O Pranto Filial (1856) foi publicado em um jornal no Rio de Janeiro após a morte de Antônia Clara Freire, mãe de Nísia Floresta. Neste texto, é perceptível o grande vazio que o falecimento de sua mãe deixou na vida de Floresta; também há passagens sobre como a vida tornou-se complicada após a morte de seu pai e como sua mãe era o alicerce da família. Profundamente afetada por essa perda, Floresta mudou-se para a Europa em busca de novos horizontes.
Fragments d’un ouvrage inédit: notes biographiques (Fragmentos de uma obra inédita: notas biográficas) foi o ultimo livro publicado por Floresta. Ela estava na Inglaterra quando seu irmão, Joaquim Pinto Brazil, faleceu em 1875. Para homenageá-lo, Floresta escreveu uma obra sobre os anos em que passou na sua terra natal, onde seu irmão também esteve presente. Embora o livro tenha sido concebido como uma homenagem a Joaquim, possui elementos autobiográficos que nos ensinam sobre a infância de Floresta e sobre eventos que permearam a vida da autora. A obra revela o esforço de Floresta para ensinar as primeiras letras a seu irmão, o amor quase maternal que ela sentia por ele, a infância em Papari e os riscos que a família enfrentou devido às constantes lutas populares contra o governo português. Além da sua trajetória pessoal, o livro detalha os diversos movimentos separatistas que ocorreram no nordeste brasileiro. Também inclui informações sobre as viagens de Floresta na Europa. Ela relata eventos ocorridos em Paris no início dos anos 1870, incluindo um retrato do desolamento após o bombardeio da capital. Pouco tempo depois, Nísia fugiu da situação, vendeu todos os seus pertences e embarcou no Neva, um navio a vapor inglês. Isso marcou a última temporada da escritora no Brasil.
3. Fontes Secundárias
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4. Filosofia e Ensino
4.1 Sobre a Metodologia de Floresta
Em suas obras, os argumentos de Floresta buscam destacar as virtudes e habilidades das mulheres. Para chegar a essa conclusão, ela utiliza diversos métodos, alternando entre descrições detalhadas e um tom mais prescritivo. Para entender a amplitude da conclusão, é crucial prestar atenção ao método. Parte de sua obra usa a comparação cultural para criticar costumes sociais e elaborar sua crítica, baseada no princípio de que a racionalidade da mulher é plena. A partir da análise dos hábitos sociais e da posição da mulher em diferentes culturas, Floresta oferece uma perspectiva sobre as virtudes femininas e o papel da educação das mulheres no desenvolvimento social. Além disso, Floresta afirma de forma explícita a necessidade de se empregar a lógica na análise social, fazendo uso também de técnicas retóricas, o que indica que ela percebia a necessidade de adequar o discurso ao seu público. Ela também utiliza a literatura para ensinar a virtude, apresentando em forma de romance o que poderia ter sido escrito de forma puramente filosófica. Essa estratégia é uma escolha pedagógica, uma vez que esses romances foram adotados na sua instituição de ensino para serem lidos por meninas. Por último, Floresta também utiliza a narrativa biográfica como forma de fazer historiografia. Ao narrar suas próprias experiencias, ela aproveita a oportunidade para relatar a história dos lugares que visitou e analisar os eventos históricos que ocorreram durante sua permanência nesses lugares.
4.2 Panorama do Conteúdo das Principais Obras de Floresta
Direitos das mulheres e injustiça dos homens (1832)
Esta obra é uma tradução livre de um panfleto feminista antigo, escrito por uma autora anônima no século XVIII. A tradução de Floresta começa com “Dedicatória às Brasileiras e Acadêmicos Brasileiros.” Com a expectativa de que seu trabalho pudesse ajudar a melhorar a situação das mulheres brasileiras na sociedade, ela escreveu:
“Assim como que, algum dia nas horas vagas de vossos altos ministérios, lançareis vistas de justiça sobre nosso sexo em geral, se não para empreender uma metamorfose na ordem persente das coisas, ao menos para conseguirmos uma melhor sorte, de que, não duvidareis, somos dignas” (Direitos das mulheres e a injustiça dos homens)
O texto principal de Direitos usa a lógica para argumentar não somente que mulheres e homens possuem a mesma capacidade, mas até mesmo que as mulheres são superiores no âmbito moral. Direitos apresenta um tom radicalmente crítico aos costumes sociais e identifica as deficiências racionais dos homens como a força causal por trás do machismo. A introdução do texto explica a tendência dos homens a cometer falácias epistemológicas e a manter crenças dogmáticas, e assegura que não há diferença entre homens e mulheres exceto no sistema criado pelos homens. Os capítulos dois e seis discutem o grau de importância atribuído às responsabilidades femininas, e refutam a crença de que as contribuições tradicionais da mulher para a sociedade devam ser desvalorizadas, bem como a ideia de que a afinidade natural das mulheres por seus papéis tradicionais de cuidadoras prove que elas são incapazes de realizar outras tarefas. O terceiro capítulo desmonta a premissa de inferioridade intelectual da mulher, e os capítulos 4, 5 e sete avançam argumentos em favor da superioridade feminina para assumir papéis de liderança no governo, na educação, e até mesmo no exército. A conclusão de Direitos reforça que a crença na inferioridade feminina não está fundamentada em critérios imparciais e racionais, e, consequentemente, é injusta. As recomendações finais do texto não defendem a revolta ou mudanças no funcionamento atual da sociedade. Ao invés disso, a autora procura emancipar as mentes das mulheres da crença irracional em sua própria inferioridade e demonstrar que todos serão beneficiados se a igualdade entre os sexos se tornar uma realidade.
A lágrima de um Caeté (1849)
“Deus, que uma raça não fez
Para sobre as outras ter
Revoltante primazia,
Ilimitado poder!” (A lágrima de um Caeté, 37)
Conforme mencionado na seção 2, este poema de 712 versos combina duas das principais vertentes do romantismo brasileiro: as lutas dos povos indígenas e as questões sociais que surgem no período do Brasil Império. O Império durou de 1822 a 1888, desde a independência do Brasil de Portugal até a Proclamação da República. O período foi marcado por revoltas populares, decorrentes da influência constante dos herdeiros da coroa portuguesa e dos progressos sociais na nação recém-independente.
Na história contada através do poema, o primeiro protagonista é um membro do povo indígena Caeté, e o opressor é o colonizador português, ambos sem nome. Quando o poema avança para sua segunda etapa, os antagonistas se tornam os homens que representam e defendem o Império Brasileiro, e os protagonistas são os liberais que se revoltam contra ele. A segunda parte retrata a recente Revolução praieira de 1848-9, que ocorrera na província de Pernambuco. Lágrima é construída como um lamento tanto pela derrota dos povos indígenas como a dos liberais de Pernambuco. O poema descreve como o destino do povo Caeté, marginalizado no Brasil, é um produto do despotismo europeu. Floresta condena a expropriação das terras e culturas indígenas, e lamenta a perda de liberais brasileiros durante a revolta. O poema é pessimista, oferecendo uma forte critica a colonização e seus efeitos.
“Ao jugo de tiranos opressores,
Qu’em nome do piedoso céu vieram
Tirar-nos estes bens qu’o céu nos dera
As esposas, a filha, a paz roubar-nos!…
Trazendo d’além mar as leis, os vícios,
Nossas leis e costumes postergaram!” (Floresta Brasileira. 1849, 11)
Opúsculo humanitário (1853)
“Não é a natureza física… que faz a superioridade do homem, mas sim a inteligência… E a inteligência, que não tem sexo, pode ser igualmente superior na mulher.” (Opúsculo humanitário, 63)
Nesta obra, Floresta postula que o indicador do progresso de uma civilização é o lugar que as mulheres ocupam nela. Para estruturar seu argumento, Floresta usa os primeiros cinco capítulos de Opúsculo para analisar o lugar ocupado pelas mulheres nas civilizações antigas e modernas. Nos capítulos 6-16, ela debate a situação contemporânea de quatro grandes nações do século XIX (Alemanha, Grã-Bretanha, França, e os Estados Unidos) em termos do lugar das mulheres nessas sociedades:
“Depois que Descartes abriu à filosofia uma nova era (…), a mulher francesa não se limitou somente aos exemplos da coragem, que deu a Joanna d’Arc a glória de libertar a pátria (…).Outras virtudes, outros triunfos mais dignos da mulher, obtêm e distinguem as Francesas de nossos dias.” (Opúsculo humanitário, 31)
Nos capítulos 17-39, Floresta analisa a educação no Brasil, atribuindo o atraso na educação do país à colonização. Finalmente, do capítulo 40 ao 62, Floresta incorpora seu projeto educacional para as mulheres brasileiras. Ao longo da obra, a influência das filosofias clássica e moderna (Platão e Descartes, por exemplo) pode ser observada, assim como a influência da sua criação católica.
Páginas de uma vida obscura (1854)
Em Páginas, Floresta narra a vida de um homem escravizado chamado Domingos. Mesmo enfrentando suas abnegações e dificuldades, ele escolhe ser virtuoso. Floresta descreve a instituição da escravatura através de adjetivos como “anti-humanitária,” “triste,” e “abnegação completa,” e recorre à moralidade cristã para defender a igualdade entre os homens (9). Essa narrativa foi inspirada em A Cabana do Pai Tomás, de Harriet Beecher Stowe, um dos romances americanos mais famosos no século XIX. Nos primeiros parágrafos do ensaio, Floresta defende a inversão da relação entre classe e valor moral. Ou seja, no que se refere a habilidade de agir com justiça, a classe marginalizada (população escravizada) deveria ser considerada superior aos nobres e herdeiros, já que é mais virtuosa. Por isso, suas ações deveriam servir como exemplo para a humanidade. De acordo com ela:
“Não são os brilhantes feitos de um gênio ou as façanhas ruidosas de um guerreiro que encadeiam hoje a nossa admiração em torno de uma minoria e nos impelem a traçar algumas linhas a fim de pagar-lhe um devido tributo.
Não é também o prestígio de um nome herdado de avós, adquirido a peso de ouro, ou elevado da sociedade por ações quase sempre ali aquilatadas conforme as circunstâncias mais ou menos favoráveis, algumas vezes calculadas, daquele que procurou enobrecê-lo com pretensões às homenagens de seus contemporâneos e à glória na posteridade.
É sim uma vida de provanças [provações], de abnegação completa, de dedicação sem exemplo, toda submergida em uma morte obscura! É a vida e a morte de um desses seres, desprezados entre nós, a quem os homens martirizarão durante a vida e a igreja nem uma oração consigna depois do passamento!
Homens de todas as classes, de todas as crenças, que tendes coração, vinde conosco ajoelhar-vos sobre a sepultura de um escravo para ouvir sua história! Vinde dela aprender virtudes que honram a humanidade!”
A Mulher (1865)
A obra La Donna (A Mulher) pode ser dividida em quatro seções. Floresta utiliza a narrativa em primeira pessoa para criticar a falta de dignidade e igualdade no atual estado da modernidade, analisando as condições precárias das crianças acolhidas e das mães nas vilas fora de Paris. Na segunda seção, Floresta identifica a causa dessa injustiça: a falta de educação moral. Ela critica o mal uso do excesso de riqueza e a prevalência da educação por fins meramente ilustrativos em nações que negligenciam o bem-estar do seu próprio povo. Floresta também identifica a abnegação como uma virtude natural e significativa da mulher. Na terceira parte, Floresta defende a igualdade entre homens e mulheres e o direito da mulher à educação. Floresta afirma que as mães são responsáveis por providenciar aos seus filhos uma educação moral e considera a maternidade em si como detentora de um imenso poder político. Na seção final, Floresta argumenta que as mulheres devem educar seus filhos com ênfase no dever e na humildade. Na conclusão do texto, Floresta reitera seu principal argumento: o de que o progresso de uma sociedade verdadeiramente civilizada começa com a educação moral, portando, começa com a maternidade. Basicamente, A Mulher funciona como um resumo das preocupações de Floresta como os direitos das mulheres, a dicotomia de civilização e barbárie, a importância de uma educação moral, e o papel da virtude feminina.
4.3 Temas filosóficos
A Natureza da Razão
Ao produzir argumentos persuasivos a favor da igualdade entre os sexos, Floresta demonstra distintas formas de raciocínio ao longo das suas obras. O primeiro texto publicado, Direitos das mulheres e injustiça dos homens, foi uma obra traduzida livremente. A obra apresenta uma análise dos argumentos em favor da igualdade de gênero sob uma perspectiva cartesiana. Em particular, a autora aparenta presumir uma metafísica cartesiana, segundo a qual cada ser humano é uma união entre a mente, uma capacidade racional puramente intelectual, e o corpo. O texto considera a razão um juiz imparcial, e a utiliza para testar sistematicamente cada afirmação de inferioridade feminina já feita pelos homens. Além disso, é estruturado com o objetivo de assegurar que nossas crenças são justificadas e fundamentadas em razões. Com base nessas suposições, ela argumenta que quaisquer diferenças entre os sexos são apenas corporais. No que diz respeito à mente, afirma Floresta, as mulheres ao tão capazes como os homens de participar em atividades intelectuais e não-domésticas.
O texto A Mulher parece se afastar dessas suposições de racionalidade humana universal, e começa a desenvolver uma concepção de razão que incorpora a influência do gênero. Ou seja, a racionalidade das nossas inferências e conclusões possuem uma dimensão de gênero. Em A Mulher, essa dimensão de gênero na razão é desenvolvida através de uma análise das diferenças entre as naturezas do homem e da mulher e seus papéis na sociedade. Essas diferenças são refletidas nas formas que homens e mulheres utilizam sua razão para fazer inferências. Ao incorporarmos esse entendimento em nossa visão de razão, podemos celebrar as vantagens em se ter dois papéis diferentes. As conclusões cartesianas sobre a igualdade dos sexos e as suas respectivas capacidades intelectuais continuam sendo aplicadas de maneira uniforme e igualitária entre os sexos. Contudo, a ideia de Floresta de uma “razão de gênero” leva a diferentes resultados, a depender do sexo em questão. Na perspectiva da “razão de gênero,” é possível concluir que as mulheres devem assumir certas funções de acordo com suas habilidades naturais.
Se Direitos enfatiza os costumes, educação, e práticas culturais como causas da desigualdade entre os sexos, A Mulher identifica a natureza como a verdadeira explicação para as diferenças culturais baseadas no gênero. Em última análise, A Mulher faz a prescrição normativa de que, como a natureza da mulher está relacionada às capacidades do coração, elas devem buscar papéis dentro do lar, fornecendo uma boa educação moral aos seus filhos e sendo úteis no ambiente doméstico. Ao procurar um culpado para a desigualdade entre os sexos, Direitos identifica as práticas epistémicas defeituosas dos homens como mecanismos para manter crenças dogmáticas e falácias lógicas em um sistema de opressão circular. Porém, em A Mulher, Floresta utiliza uma abordagem diferente ao argumentar que a culpa está na falta de educação moral na sociedade. A responsabilidade pela manutenção do maltrato às mulheres é atribuída à inercia dos maus exemplos familiares.
Virtudes Femininas
Desde cedo, em A Mulher (1865), Floresta estabelece a importância das virtudes ferminas. Ser mulher, afirma Floresta explicitamente, é praticar a virtude. Em parte, como resposta ao que ela entende como o ‘egoísmo’ em ascensão do mundo moderno, Floresta destaca virtudes como a resignação, modéstia, caridade, lealdade familiar, e obediência, ao longo das suas obras. Em especial, Floresta argumenta que mulheres possuem naturalmente a nobre virtude da generosidade, ou ‘abnegação.’ Em sua generosidade, as mulheres direcionam a sua atenção para o cuidado dos outros. Ao fazer isso, as mulheres focam no bem-estar dos seus maridos e filhos e realizam deveres domésticos com alegria. O “sacrifício sublime” da maternidade e a ‘auto-abnegação,’ naturais às mulheres, servem não apenas para nutrir a família, mas, segundo Floresta, as proporcionam um caminho para a iniciativa política. Floresta acredita que as virtudes pertencentes ao âmbito privado, como o cuidado de uma mãe com seus filhos, podem resultar em uma forte ação política. Virtudes, segundo Floresta, são hábitos sociais. Por isso, afirma a mesma, virtudes naturais às mulheres são mais efetivas como “cura” das feridas do mundo moderno do que o intelecto dos homens instruídos. Esses homens, diz ela, devem valorizar as mulheres pela sua suprema virtude ao invés da sua beleza, e tratá-las como companheiras. Embora a generosidade seja uma virtude natural, as mulheres devem receber uma educação moral para saber como aplicar suas virtudes. Em troca, essas mulheres também devem oferecer aos seus filhos com uma educação moral. Ao fazer isso, as mulheres criam bons cidadãos, que reconhecem a importância do dever, igualdade, e humildade, e assim podem influenciar a organização política da sociedade. Para Floresta, é através da maternidade e suas virtudes inerentes que as mulheres detêm poder político e influência. Ainda que esse cuidado comece em casa, Floresta acredita que as virtudes femininas, quando incentivadas por meio da educação moral, podem moldar a condição de uma nação.
Educação
Não é surpresa que grande parte do trabalho de Floresta seja voltado para a educação. Além dela ter sido uma estudante séria, também fundou e administrou uma escola no Rio de Janeiro. Lá, ela criou oportunidades para que as jovens recebessem uma educação que abrangia disciplinas além das artes domésticas. O currículo escolar de Floresta incluía poesia, geografia, história antiga e moderna, gramática de latim, italiano e francês, e literatura, além de aulas que focavam em habilidades domésticas. Em sua filosofia, no entanto, Floresta distingue a educação institucional acadêmica da educação moral. Ela argumenta que as meninas devem receber educação moral, uma perspectiva intimamente ligada à sua concepção de virtudes femininas. Já a educação institucional acadêmica, que era dominada pelos homens, é criticada por floresta como uma forma ineficiente de lutar pelo fim da desigualdade no mundo moderno.
Em A Mulher, Floresta identifica a educação moral como a resposta apropriada para injustiças como a negligência de crianças observada na Europa. A educação moral serve para aprimorar e engajar o coração ao invés da mente. Uma educação do coração nutre o bem-estar espiritual de um país tanto no âmbito privado, através da parentalidade, como no âmbito público através das escolas e do governo. Tendo essa educação em mãos, as mulheres podem combater as tentações do corpo e o egoísmo. Elas também podem se tornar ‘mães-educadoras,’ um papel natural para as mulheres. Através do exemplo, a ‘mãe-educadora; ensina a seus filhos a importância de virtudes como dever, resignação, lealdade e humildade. ‘Mães educadoras’ possuem grande agência política para Floresta, pois elas moldam os cidadãos através da criação de seus filhos. Segundo Floresta, para quebrar o ciclo de opressão das mulheres, as filhas e os filhos devem ser criados com o mesmo tratamento. É dentro do lar, afirma Floresta, que as crianças aprendem a entender o gênero e começam a cuidar dos outros. Como observado acima, Floresta não argumenta explicitamente que as mulheres devem receber uma educação institucional acadêmica. Em seus escritos, ela propõe a educação moral como a maneira mais eficiente de combater injustiças e centraliza as mulheres como cruciais nessa empreitada. Apesar disso, o apoio de Floresta pela igualdade de acesso à educação ‘acadêmica’ é evidente através da sua prática. Conforme observado, em suas funções como fundadora e diretora de uma escola, ela incentivou e promoveu o acesso igualitário à ambas as formas de educação para as suas alunas.
5. Correspondência
5.1 Cartas de Auguste Comte

Auguste Comte foi o fundador do positivismo, corrente filosófica e grande movimento intelectual do século XIX que advogava a ação política pragmática e a ciência empírica como meios de promover o progresso humano. O positivismo teve uma influência significativa no desenvolvimento da nascente nação brasileira, que adaptou o seu lema, “Ordem e Progresso,” dos escritos de Comte.
Comte e Floresta tiveram uma troca intelectual vibrante, com Comte chegando a descrevê-la como o futuro do positivismo. Em 1851, floresta frequentou o seu curso de História Geral da Humanidade no Palais Cardinal em Paris (atualmente Palais-Royal). Floresta o visitou em sua casa e ele também a visitou. Em História do Positivismo no Brasil, Ivan Lins apresenta uma descrição de um desses encontros, feita por um brasileiro que estava presente na ocasião. O homem descreve a casa de Floresta como “o salão da escritora brasileira” (Lins, 21-22), onde ela recepcionava Comte com entusiasmo. Ela costumava dizer aos presentes que Comte era um gênio. Floresta estava na França quando ele faleceu e atendeu o seu velório prestando suas últimas homenagens. Dentre todas as correspondências de Floresta, a com Comte é a mais preservada, e a primeira a ser publicada. Uma edição limitada de 100 copias foi impressa em 1888 no rio de Janeiro. A editora foi uma organização chamada Igreja Positivista e Apostolado do Brasil, fundada em 1881 pelos seguidores brasileiros de Comte. Devido a sua proximidade com Comte, Floresta foi considerada uma positivista, porém ela nunca se tornou membro do grupo. Quanto ao livro, contém 7 cartas enviadas por Auguste Comte a Nísia Floresta, mas não inclui nenhuma das suas respostas. Nas cartas de Comte, o fato dele possuir uma amiga intelectual mulher é um tema recorrente. Ele escreve que ter companheiras femininas tão dignas ajuda no trabalho intelectual, já que “apenas elas podem dissipar ou corrigir a secura fatal da teorização” (p. 6). Comte a refere por “Madame Brasileira,” um indicador de que ela conhecida nos círculos intelectuais como a intelectual brasileira da época.
5.2 Cartas para George Duvernoy
George Duvernoy foi um naturalista, zoologista e professor francês do Collège de France. Ele e Floresta eram amigos próximos e Duvernoy acolheu Floresta em seus cursos. As famílias de ambos também eram próximas e se encontravam em Paris para passar tempo juntas. Uma pesquisa de arquivo conduzida pela professora Monalisa Carrilho revelou que duas cartas que Floresta enviou para Duvernoy estão guardadas nos arquivos do Museu Nacional de História Natural da França, em Paris. As cartas de Duvernoy para Floresta não estão disponíveis.
A primeira carta de Floresta é datada de 13 de agosto de 1852, escrita do Rio de Janeiro. Na época, Floresta havia chegado recentemente no Brasil, após o seu primeiro período de viagens na Europa (1849-1851). A carta tem um tom afetuoso, escrita como resposta à uma correspondência anterior de Duvernoy. Ela o agradece pelo tempo que passaram com suas em famílias juntas em Paris e expressa sua preocupação pela saúde dele. Ela o deseja melhoras, repreendendo-o por continuar a dar aulas mesmo estando com uma doença pulmonar. Sua repreensão bem-intencionada é acompanhada por uma declaração da sua visão sobre o trabalho envolvido na realização da ciência, tanto como individuo como sociedade, e ela aproveita a ocasião para falar sobre as condições de educação no Brasil:
“Apesar de seu pulmão debilitado você insiste em continuar dando aulas. Meu deus, como é belo e poderoso o amor pela ciência já que ele nos faz esquecer todas as preocupações materiais com nossa própria conservação. Eu queria poder repreender meu douto amigo pelo excesso de abnegação que só aumenta a ameaça de tirá-lo prematuramente a seus amigos e, no entanto, morro de vontade de imitá-lo na esfera estreita de minha inteligência dedicando-me como tenho feito a estudos sobre a educação no meu país onde tudo ainda é tão difícil para chegar a esse grau de perfeição que sonho para ele.”
Floresta, então, menciona a publicação de Opúsculo humanitário e expressa seu desejo de traduzir a obra para o francês, para que pudesse enviar-lhe um exemplar. Ela o agradece pelos cursos que ela atendeu e o deseja uma pronta melhora para que eles continuassem seu intercâmbio intelectual. Naquele momento, Duvernoy estava prestes a completar 76 anos. Ela o repreende novamente, afirmando que o amor pela ciência está o matando. A carta também informa sobre a ação de Floresta como colecionadora de espécimes para Duvernoy. Ela conta que possui alguns insetos brasileiros para lhe dar, mas não sabe como enviá-los sem danificar as amostras. A carta está assinada como ‘Brasileira,’ indicando que ela é conhecida como a “mulher brasileira” nos círculos intelectuais franceses.
Há também uma segunda carta, datada de 24 de março de 1855, que foi escrita após a morte de Duvernoy, uma vez que ela não sabia sobre o seu falecimento, ocorrido em 1 de março de 1855.
Até o momento desta publicação, a professora Carrilho, quem descobriu essas cartas, ainda está em processo de transcrevê-las e traduzi-las para publicação. A informação que possuímos sobre o conteúdo das cartas é resultado de uma leitura preparada para as professoras Nastassja Pugliese e Gisele Secco em dezembro de 2022, a qual foi gravada e utilizada como fonte.
5.3 Cartas perdidas
Nas suas obras autobiográficas e relatos de viagem, Floresta descreve as suas interações com intelectuais europeus de várias áreas – filósofos, historiadores, figuras literárias, músicos, membros da igreja e funcionários do estado. Ela manteve correspondêcia com vários deles, incluindo os escritores franceses Alexander Dumas, Victor Hugo, Alphonse de Lamartine, George Sand e Auguste de Saint Hilaire, e os italianos Anita e Giuseppe Garibaldi e Giuseppe Mazinni, ativistas no Risorgimento, o movimento de unificação da Itália. A busca por essas correspondências continua sendo um problema não resolvido pelos pesquisadores. Segundo Duarte, a principal biógrafa de Floresta, as cartas foram perdidas em um naufrágio quando Lívia, sua filha, as enviou de Paris para o Rio para serem publicadas no Brasil (conversas com a professora Pugliesi e Yasmin Pontes para este trabalho). Contudo, é provável que algumas cartas estejam espalhadas nas coleções de cartas dos destinatários, como no caso de George Duvernoy. A busca e coleta dessas cartas é uma tarefa em aberto para a pesquisa de arquivo.
6. Conexões
6.1 Poulain, Sophia, e Wollstonecraft
Para entender a relação entre Floresta e outros pensadores, é importante lembrar que muitas vezes essas relações ocorriam através da tradução, que no início do período moderno permitia ao tradutor muito mais liberdade para interpretar o texto do que estamos acostumados hoje em dia. Conforme a pesquisa sobre Floresta avança, ganhamos uma melhor compreensão das suas percepções do que estava lendo e do que ela pretendia expressar em suas traduções de outros trabalhos.
A obra Direitos é uma tradução do trabalho anônimo de alguém chamada apenas “Sophia.” O próprio panfleto de Sophia é uma reformulação de argumentos cartesianos encontrados na obra Da igualdade dos dois sexos, de François Poulain de la Barre (veja Clarke 2013, 9-13), publicada em 1673. O trabalho de Poulain em defesa da igualdade entre homens e mulheres circulou ampliamente na França, foi traduzido para o ingles em 1677, e posteriormente foi base para o texto de Sophia, Mulher não inferior ao homem (Woman not inferior to man), publicado em Londres em 1739. Para complicar ainda mais a questão, Direitos foi considerado, por muito tempo, uma tradução de Uma Reivindicação pelos Direitos da Mulher (Vindication of the Rights of Woman), de Mary Wollstonecraft. Essas circunstâncias complexas podem ter dificultado a compreensão das diferenças observadas por Floresta entre seu projeto e o de Wollstonecraft. Por exemplo, ao citar Wollstonecraft em Opúsculo humanitário, Floresta diferencia seus objetivos dos da filósofa inglesa. Floresta diz que ela não está ativamente envolvida na defesa dos direitos das mulheres como Wollstonecraft. Ao invés disso, ela se interessa pela luta pela qualidade da educação das mulheres. Segundo ela, “Mas deixemos a Wollstonecraft, Condorcet, Sieyes, Legouvé etc. a defesa dos direitos do sexo; a nossa tarefa é outra, e cremos que mais conveniente será às sociedades modernas: a educação da mulher” (32). Devido a essas complexidades históricas e textuais, Direitos conecta Floresta a Poulain, Sophia e Wollstonecraft de maneiras e razoes distintas (para mais informações, veja Pugliese 2023).
6.2 De Stäel, Descartes, Plato, Rousseau, Fénelon
Floresta era uma leitora voraz. Muitas das suas obras contêm informações biográficas que nos permitem deduzir a vasta quantidade de textos que ela lia. Por exemplo, além de propor um novo projeto educacional para o Brasil, Opúsculo humanitário nos mostra que Floresta consultou muitos autores durante a sua vida. Mesmo um leitor casual pode perceber as muitas citações-diretas e indiretas- de autores canônicos da época.
É notório que alguns autores foram particularmente inspiradores para Floresta em sua formação filosófica. François Fénelon é mencionado como um homem “sábio” em Opúsculo e “sublime” em um discurso de Floresta às suas alunas no final do ano letivo de 1847. O nome de Madame de Staël aparece em suas obras com muitos adjetivos enaltecedores — “autora ilustre,” “talento transcendente,” etc. A conexão de Floresta com Madame de Staël não se limita à sua admiração pelas obras de Staël: Floresta era considerada por muitos a “Madame Staël brasileira.” Assim como Staël, ela também escrevia relatos de viagem, considerava Descartes uma figura central para a conquista dos direitos das mulheres, e tinha Platão como sua referência metafísica. Ela também criticou Rosseau por sua perspectiva sobre a educação das mulheres. Aqui estão alguns exemplos das suas citações desses autores.
“A mulher é como o homem, conforme se exprime o sublime Platão, uma alma servindo-se de um corpo.” (Opúsculo, 62)
“O virtuoso Montesquieu, pensando assim da mulher, autorizava ao degenerado espiritualista Rousseau, quando disse: ‘A mulher é feita especialmente para agradar ao homem; se o homem deve agradá-la, por sua vez, é uma necessidade menos direta; seu mérito está em seu poder; ele agrada simplesmente porque é forte.’” (Opúsculo, 32)
“O sublime Fenelon compreendeu bem essa felicidade, quando disse: ‘A ignorância de uma moça é motivo para que ela se encontre muitas vezes nesse estado de indefinível fastio do mundo, no qual inocentemente não sabe com o que deva se ocupar.” (Discurso, 6)
“Uma das duas primeiras escritoras francesas de nosso século, Mme. de Staël, atribui à facilidade do divórcio entre os Alemães a introdução nas famílias, de uma sorte de anarquia, que nada deixa subsistir em sua verdade, nem em sua força.” (Opúsculo, 25)
6.3 Harriet Beecher Stowe
Harriet Beecher Stowe foi uma autora e abolicionista estadunidense do século XIX. Stowe é mais conhecida pelo romance A cabana do Pai Tomás (Uncle Tom’s Cabin, 1852), que retrata os horrores da escravidão nos Estados Unidos e é considerado um fator que contribuiu para a Guerra Civil no país. O livro é voltado para a importância dos valores cristãos e aponta a escravidão como algo que se opõe à doutrina cristã. Em Opúsculo, Floresta exalta Stowe e incentiva o público a ler os seus textos. A influência de Stowe em Floresta é observada mais claramente na obra Páginas de uma vida obscura (1854). Páginas narra a história de um homem escravizado chamado Domingos. De maneira Similar a Stowe, Floresta ressalta a hipocrisia dos cruéis donos de escravos cristãos e preza Domingos por manter suas virtudes cristãs em face à opressão.
“O livro de Mrs. Stowe é um primor de moral, de delicadeza de estilo, de sentimentos sublimes, (…) demonstrando os crimes em presença de suas vítimas, debaixo das formas mais capazes de inspirar o interesse e a compaixão, sobre o brado da rígida moral que severamente acusa a sociedade de qualquer povo de havê-los praticado.” (Opúsculo humanitário, 42)
“Nós outros brasileiros, que lemos esse livro, corando do opróbrio que igualmente pesa sobre a nossa terra, nas reproduções daquelas cenas de horror que tão pateticamente descreve a insigne Stowe, deveríamos fazer nossos filhos decorar algumas de suas páginas mais salientes, a fim de podermos guardar a consoladora esperança de que as gerações futuras farão apagar, nos que lerem um dia a nossa história, a impressão dolorosa dos crimes cometidos pelas gerações presentes sobre a mísera raça africana!… (Opúsculo humanitário, 42)
6.4 Monteiro Lobato e Gilberto Freyre
Nísia Floresta ficou conhecida como uma grande intelectual brasileira que nunca recebeu a atenção merecida. No início do século XX, Monteiro Lobato mencionou Floresta como exemplo de poeta cuja obra deveria ser resgatada, mas que, provavelmente, acabaria esquecida. O sociólogo Gilberto Freyre também a cita como exemplo de uma mulher excepcional. Diversos outros importantes escritores brasileiros citaram a obra de Floresta, incluindo Luís da Câmara Cascudo e Raquel de Queiroz.
A obra de Monteiro Lobato (1882-1948) tem recebido críticas veementes devido ao seu racismo explícito. A coleção “O sítio do pica-pau amarelo” é lida por crianças há décadas no Brasil. Atualmente, existe um debate acerca da manutenção da leitura desses livros nas escolas. No conto “A feminina,” Lobato imagina — em um tom irônico, mas ainda assim misógino – como seria a criação de uma Academia de Letras Feminina. As mulheres eram proibidas de participarem da Academia Brasileira de Letras, mas, ao invés de discutir a proibição em seu conto, ele imagina a construção de uma versão feminina da academia. O racismo e misoginia explícitos da citação a seguir serve como ilustração para os sentimentos ainda predominantes no inicio do século XX.
“Arquitetada nestas bases, a nova academia terá vida longa e amena. Nossas damas se reunirão todas as semanas para conversar sobre modas, fatos sociais, casamentos, divórcios, etc., isto antes da sessão. Durante a sessão uma lerá versos de poetisas esquecidas, como a Nísia Floresta; outra dissertará sobre o absurdo do sapato das chinesas; outra deitará apóstrofes fulminantes contra o tráfico das brancas; outra provará que a inteligência humana não tem sexo.
Finda a assembleia irão todas para casa, muito contentes da vida, ansiosas por lerem o compte-rendu da festa nos jornais do dia seguinte.
E a harmonia do universo em nada se perturbará. Nísia Floresta continuará esquecida; os proxenetas continuarão a escravizar as brancas; as chinesas continuarão a torturar os horrendos pedúnculos e a inteligência humana continuará dividida em dois sexos, o masculino que leva Newton a descobrir a lei da gravitação e o feminino, que nos leva a fazer asneiras.” (Lobato 2003 [1933], “A feminina”)
Gilberto Freyre foi um importante sociólogo, historiador, antropólogo e escritor, considerado um dos sociólogos mais importantes do século XX. Na obra Sobrados e Mucambos (1936), ele relata mudanças na dinâmica de poder de gênero no século XIX, com enfoque nas áreas rurais do país. Freyre enaltece as conquistas de Floresta no mundo das letras no capítulo quatro, “A mulher e o homem.”
“Da falta de feminilidade de processos – na política, na literatura, no ensino, na assistência social, em outras zonas de atividade – ressentiu-se a vida brasileira, através do esplendor e principalmente do declínio do sistema patriarcal. Só muito aos poucos é que foi saindo da pura intimidade doméstica um tipo de mulher mais instruída – um pouco de literatura, de piano, de canto, de francês, uns salpicos de ciência – para substituir a mãe ignorante e quase sem outra repercussão sobre os filhos que a sentimental, da época de patriarcalismo ortodoxo. Nas letras, já nos fins do século XIX apareceu uma Narcisa Amália. Depois, uma Cármen Dolores. Ainda mais tarde, uma Júlia Lopes de Almeida. Antes delas, quase que só houve bacharelas medíocres, solteironas pedantes ou simplórias, uma ou outra mulher afrancesada, algumas das quais colaboradoras do Almanaque de lembranças luso-brasileiro. E assim mesmo foram raras. Nísia Floresta surgiu – repita-se – como uma exceção escandalosa. Verdadeira machona entre as sinhazinhas dengosas do meado do século XIX. o meio dos homens a dominarem sozinhos todas as atividades extradomésticas, as próprias baronesas e viscondessas mal sabendo escrever, as senhoras mais finas soletrando apenas livros devotos e novelas que eram quase histórias do Trancoso, causa pasmo ver uma figura como a de Nísia.” (366-367)
7. Recursos online
7.1 Podcasts
Em inglês
Branscum, Olivia e Nastassja Pugliese. 2021. “Nísia Floresta Brasileira Augusta: Interview with Nastassja Pugliese.” New Voices: Extending New Narratives in the History of Philosophy. 31 de dezembro de 2021. Podcast. 41 min.
Em português
Lopes, Marcos e Nastassja Pugliese. 2015. “Filósofas Brasileiras no Século XIX – Entrevista com Nastassja Pugliese.” Filosofia Pop. 18 de maio de 2015. Podcast. 103 minutos.
7.2 Palestras em vídeo sobre Floresta
Em inglês
Pugliese, Nastassja. 2021. “Nísia Floresta’s critique of colonialism: Practical Cartesianism put to test.” Seminario de Investigadores, Instituto De Investigaciones Filosóficas-UNAM. 10 de novembro de 2021. Video. 107 minutos.
Em português
Pallares-Burke, Maria Lúcia Garcia. 2021 “Nísia Floresta: Revisitando seu papel na história das ideias feministas e educacionais.” Vozes: Mulheres na História da Filosofia – UFRJ. 1 de junho de 2021. Video. 85 minutos.
Arion, Vinicius, Maurício Rasia Cossio, and E Janyne Sattler. 2020. “Nísia Floresta e a Educação Para a Emancipação.” Uma Filósofa Por Mês. October 22, 2020. Vídeo. 115 minutos.
7.3 Fac-símiles de fontes selecionadas organizadas por data original de publicação
1838 (1 de janeiro) – Jornal do Commercio – notícia sobre a abertura do Colégio Augusto. Disponível aqui.
1839 (6 de setembro) Jornal do Commercio – notícia sobre a venda do livro Direitos. Disponível aqui.
1847 – Jornal O Mercantil – uma crítica ao Colégio Augusto. Disponível aqui.
1849 – Primeira edição do poema A Lágrima de um Caeté. Disponível aqui.
1853 – O primeiro artigo das publicações em série da obra Opúsculo humanitário no Diário do Rio de Janeiro. Disponível aqui.
1853 – O primeiro artigo das publicações em de Opúsculo humanitário no O Liberal. Disponível aqui.
1855 – O primeiro capítulo das publicações em série da obra Páginas de uma vida obscura no O Brasil Ilustrado. Disponível aqui.
1864 – O livro Trois ans en Italie é publicado. Volume 1: Disponível aqui. Volume 2: Disponivel aqui.
1872 –Uma resenha do livro Trois ans en Italie na qual ela é descrita como “Brasileira de Stael.” Disponível aqui.
1879 (23 de maio) – a revista O Novo Mundo (Nova York) publicou um artigo sobre Floresta com o seu retrato mais famoso. Disponível aqui.
1885 (24 de abril) – Dois obituários de Floresta: Jornal do Commercio (jornal): Disponível aqui. O Paiz (jornal): Disponível aqui.
1888 – Primeira edição da correspondência entre Floresta e Auguste Comte. Disponível aqui.
1933 – Revista da semana: Disponível aqui.
1939 – Revista da semana: Disponível aqui.
1948 – Anúncio da mudança de nome Papari para Nísia Floresta: Disponível aqui.
1950 – Mundo Hispánico N.53, maio, Madrid – publica revista em quadrinhos sobre a vida de Floresta (página 7): Disponível aqui.
1954 – Selo e carimbo comemorativos em homenagem ao translado do corpo e Floresta da França ao Brasil para que ela fosse sepultada em sua cidade natal. Disponível aqui.
Projeto Memória com imagens da vida e obra de Floresta. Disponível aqui.
1996 – Reprodução da tradução feita por Lívia Augusta de Faria Rocha de La Donna para o inglês, o ensaio Woman, acompanhada de uma introdução de Peggy Sharpe. Disponível aqui.
